Publicação: 19/06/2012 11:24 Atualização: 19/06/2012 12:07
Shin Dong-hyuk é um caso único na história da Coreia do Norte. Ele foi a primeira pessoa nascida num campo de prisioneiros políticos do país a escapar. A primeira lembrança que Shin tem é de uma execução. Seu pai o ignorava e ele via a mãe como adversária na luta pela sobrevivência. Shin nunca ouvira falar de Deus ou de amor. Passava os dias trabalhando e apanhando. Teve um dedo cortado por ter quebrado uma máquina de costura. Sua família foi parar no Campo 14 em represália porque dois tios haviam ido para o Sul durante a Guerra da Coreia. Ao fugir, não estava atrás de liberdade ou direitos políticos. Sonhava conhecer as comidas sobre as quais falava um prisioneiro. Escapou em 2005, aos 23 anos, para a Coreia do Sul. A dramática trajetória é contada pelo jornalista americano Blaine Harden emFuga do Campo 14 (Intrínseca). Os temidos campos de trabalhos forçados do país mais fechado do mundo já duram duas vezes mais que o Gulag soviético e quase 12 vezes mais que os campos nazistas.
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| Jornalista norte-americano Blaine Harden, autor de Fuga do Campo 14 |
Depois da Coreia do Sul, Shin mudou-se para os EUA. Você tem estado em contato com ele?
BLAINE HARDEN: Sim, temos viajado juntos nas últimas semanas pelos Estados Unidos e pela Europa para falar sobre o livro, e os abusos dos direitos humanos na Coreia do Norte.
Como ele está hoje?
Ele parece estar melhor do que nunca. Em 2011, voltou para Seul, na Coreia do Sul, onde faz um trabalho de direitos humanos que inclui o uso de webcasting. Ele entrevista outros desertores do Norte e fala sobre suas próprias experiências. Parece mais equilibrado emocionalmente e mais articulado do que nunca.
No livro, é dito que mesmo fora do campo Shin continua prisioneiro, agora da culpa, da vergonha e do ódio a si mesmo. Algum dia ele será capaz de assumir o controle de sua vida?
Como o próprio Shin diz, ele ainda está lutando para aprender a se tornar um ser humano. Conceitos como amor e confiança continuam a ser difíceis para ele. Ele disse em um discurso recente que acha que vai demorar 18 anos para dar sentido às coisas. Eu não sei de onde tirou esse número, mas Shin acredita que tem muito trabalho a fazer.
O que mais o impressionou em sua história?
Sua coragem em tomar a decisão de fugir, apesar de saber que as chances de sobrevivência eram tão escassas.
Qual foi a parte mais difícil de contar esta história?
Shin não é um contador de histórias nato. Por isso, levou anos para eu juntar seus relatos e reunir detalhes que tornem o livro claro e coerente.
O que você sentiu ouvindo os relatos de Shin?
Ao longo dos anos, ouvi muitas histórias horríveis como jornalista. Minha resposta emocional à história de Shin foi silenciada por causa dessa experiência jornalística e porque eu estava concentrado em tentar contar a história dele da forma mais poderosa possível. Quando terminei o livro e revisei as provas, aí sim caí num grande choro.
A certa altura do livro, você conta que ele revela ter traído a mãe e o irmão, ao contrário do que dissera anteriormente. Como você se sentiu?
Fiquei espantado. Eu não esperava que ele dissesse isso, mas, uma vez que o fez, sua história e a culpa que sente sobre o seu tempo no campo de repente fizeram muito mais sentido.
Por que os EUA negligenciam a situação dos campos?
Os Estados Unidos estão focados nas ameaças das armas nucleares e dos mísseis de longo alcance, que são reais e importantes. Mas a catástrofe dos direitos humanos na Coreia do Norte também é vital. Ignorá-la viola nossos valores nacionais.
Você acredita que seu livro mudou a percepção dos americanos sobre a Coreia do Norte e aumentou a pressão pelo fim dos campos?
Um livro não muda a opinião pública dos Estados Unidos. Mas acho que o poder da história do Shin chamou a atenção de muitos americanos, assim como de pessoas ao redor do mundo, e chocou-as a ponto de desenvolver uma nova consciência sobre a realidade de opressão na Coreia do Norte.
Você acha que o regime norte-coreano se enfraqueceu com a chegada ao poder de Kim Jong-un, filho do ditador Kim Jong-il?
É muito cedo para dizer. Mas cedo ou tarde esse estado totalitário entrará em colapso, ou mudará radicalmente.
BLAINE HARDEN: Sim, temos viajado juntos nas últimas semanas pelos Estados Unidos e pela Europa para falar sobre o livro, e os abusos dos direitos humanos na Coreia do Norte.
Como ele está hoje?
Ele parece estar melhor do que nunca. Em 2011, voltou para Seul, na Coreia do Sul, onde faz um trabalho de direitos humanos que inclui o uso de webcasting. Ele entrevista outros desertores do Norte e fala sobre suas próprias experiências. Parece mais equilibrado emocionalmente e mais articulado do que nunca.
No livro, é dito que mesmo fora do campo Shin continua prisioneiro, agora da culpa, da vergonha e do ódio a si mesmo. Algum dia ele será capaz de assumir o controle de sua vida?
Como o próprio Shin diz, ele ainda está lutando para aprender a se tornar um ser humano. Conceitos como amor e confiança continuam a ser difíceis para ele. Ele disse em um discurso recente que acha que vai demorar 18 anos para dar sentido às coisas. Eu não sei de onde tirou esse número, mas Shin acredita que tem muito trabalho a fazer.
O que mais o impressionou em sua história?
Sua coragem em tomar a decisão de fugir, apesar de saber que as chances de sobrevivência eram tão escassas.
Qual foi a parte mais difícil de contar esta história?
Shin não é um contador de histórias nato. Por isso, levou anos para eu juntar seus relatos e reunir detalhes que tornem o livro claro e coerente.
O que você sentiu ouvindo os relatos de Shin?
Ao longo dos anos, ouvi muitas histórias horríveis como jornalista. Minha resposta emocional à história de Shin foi silenciada por causa dessa experiência jornalística e porque eu estava concentrado em tentar contar a história dele da forma mais poderosa possível. Quando terminei o livro e revisei as provas, aí sim caí num grande choro.
A certa altura do livro, você conta que ele revela ter traído a mãe e o irmão, ao contrário do que dissera anteriormente. Como você se sentiu?
Fiquei espantado. Eu não esperava que ele dissesse isso, mas, uma vez que o fez, sua história e a culpa que sente sobre o seu tempo no campo de repente fizeram muito mais sentido.
Por que os EUA negligenciam a situação dos campos?
Os Estados Unidos estão focados nas ameaças das armas nucleares e dos mísseis de longo alcance, que são reais e importantes. Mas a catástrofe dos direitos humanos na Coreia do Norte também é vital. Ignorá-la viola nossos valores nacionais.
Você acredita que seu livro mudou a percepção dos americanos sobre a Coreia do Norte e aumentou a pressão pelo fim dos campos?
Um livro não muda a opinião pública dos Estados Unidos. Mas acho que o poder da história do Shin chamou a atenção de muitos americanos, assim como de pessoas ao redor do mundo, e chocou-as a ponto de desenvolver uma nova consciência sobre a realidade de opressão na Coreia do Norte.
Você acha que o regime norte-coreano se enfraqueceu com a chegada ao poder de Kim Jong-un, filho do ditador Kim Jong-il?
É muito cedo para dizer. Mas cedo ou tarde esse estado totalitário entrará em colapso, ou mudará radicalmente.







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